quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

palavras-imagens-mundo

Uma palavra é uma imagem que subsiste na nossa memória.

Tal imagem é independente da realidade que nos é presente: é produto do nosso passado. (todas as palavras que temos "hoje" são provenientes do nosso "ontem")

Designamos o que nos é presente com as palavras que temos.

Uma imagem que nos é presente torna-se dependente das palavras com que "olhamos" para ela.

Essa imagem é por isso mesmo, um conjunto de palavras. ( se falamos sobre essa imagem, se a opinamos, usamos sempre conjuntos de palavras: proposições, frases. ex.: podemos dizer que hoje está a chover: isto é uma designação para uma imagem presente. )

Uma palavra sozinha subsiste como imagem independente (ex.: podemos dizer que uma garrafa de vidro emite brilho quando lhe apontamos uma luz. Se isolarmos a palavra "brilho", ou "garrafa" elas subsistem e fazem sentido porque se referem a particularidades do nosso mundo: são imagens fixas. 

Por isso, desde que uma imagem ou palavra esteja fixa no nosso vocabulário, estando ela isolada, torna-se simples de a compreender. 

Tanto mais simples quanto mais antiga for. As palavras novas, ou as experiências novas, tal como um cão que acaba de se agrupar a uma matilha, serão tomadas como ameaças, são incertas, duvidosas, precisamente pelo facto de não fazerem parte da nossa - já consistente - cadeia de palavras/opiniões.

Outras opiniões só viriam abalar essa mesma consistência. (Explica-se aqui porque é que as pessoas são tão casmurras)

Nota: Os anúncios, na grande maioria, usam poucas palavras precisamente para serem de fácil compreensão.

A nossa memória sustenta as imagens que constroem a cadeia das nossas opiniões (palavras ou conjuntos de palavras: ideias)

Quanto menos imagens subsistirem na nossa memória, mais simples se apresentarão as coisas perante os nossos olhos.

Uma criança, com poucas palavras, nunca dirá muito acerca daquilo que lhe é presente. Nem tampouco um velho amnésico.

Então, o pensamento torna-se ridículo.

Não há pensamento.

Existem antes, imagens que são incutidas na nossa memória e que, a partir delas, tecemos a teia que designa o mundo que nos é presente.

Existem antes, hábitos que herdamos do ambiente em que crescemos (tal como acontece com os animais)
O acto de aprender uma palavra ou uma designação nova, pressupõe sempre palavras, imagens (experiências) já existentes previamente em nós. 

Aprender é isso mesmo: fazer uma apreensão de uma imagem, símbolo, palavra ou experiência, na nossa memória.

Não existe apreensão se não encaixarmos coerentemente a nova imagem na cadeia de imagens que já nos constrói. por exemplo: um indivíduo não aprende o significado de "fração", se não tiver já assimilado o significado de "unidade". 

Não tiramos muito partido de uma determinada experiência se ela não se revelar pertinente ou não se encaixar na nossa cadeia de ideias.

Os humanos só conseguem "pensar" na mesma medida que os animais "pensam".

Um animal desloca-se no seu território, ele conhece-o, ele domina-o.

O homem faz o mesmo. O que difere é somente o número de imagens perpetualizadas (palavras,símbolos,ideias) com que o humano designa o seu território - é um número muito superior ao número de imagens perpetualizadas pelos demais animais. 

Neste sentido, o mundo que o humano designa, é diferente do mundo que o animal designa.

Também difere o desígnio do mundo de humano para humano: dois indivíduos têm sempre cadeias de palavras/ideias/experiências diferentes.

Os meios técnicos são produtos de uma contínua perpetualização de imagens e aglomeração destas. Hoje temos milhões de desígnios para cada especificidade do nosso mundo. e cada vez surgem mais.

Irmos á lua ou ao espaço, parte da mesma necessidade que o animal tem de procurar alimento para além do seu perímetro. E no fundo, ambos fazem essencialmente o mesmo - um deslocamento em prol de um mesmo princípio: sobrevivência…. apesar de eu gostar mais de lhe chamar a "busca do prazer".

André Rúben
sex
9/12/11

sábado, 3 de dezembro de 2011

dada

"Eu redijo um manifesto e não quero nada, eu digo portanto certas coisas e sou por princípios contra manifestos (...). Eu redijo este manifesto para mostrar que é possível fazer as ações opostas simultaneamente, numa única fresca respiração; sou contra a ação pela contínua contradição, pela afirmação também, eu não sou nem para nem contra e não explico por que odeio o bom-senso." 


Tristan Tzara

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sabedoria popular da grécia antiga

Segundo uma lenda antiga, o rei Midas perseguiu na floresta o velho Sileno, companheiro de Diónisos, e durante muito tempo sem poder alcança-lo. Quando conseguiu, por fim, apoderar-se dele, o rei perguntou-lhe qual era a coisa que o homem deveria preferir a tudo e considerar sem par. Imóvel e obstinado, o demónio não respondia. Até que por fim, coagido pelo vencedor, desatou a rir e proferiu as seguintes palavras: " Raça efémera e miserável, filha do acaso e da dor! E tu, porque me obrigas a revelar-te o que mais te valeria ignorar? O que tu deverias preferir não o podes escolher: é não teres nascido, não seres, seres nada. Já que isso te é impossível, o melhor que podes desejar é morrer, morrer depressa.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O carácter inalterável

ue o carácter seja inalterável, não é verdade no sentido estrito; pelo contrário, essa estimada proposição apenas significa que, durante a curta duração da vida dum homem, os motivos , que sobre ele actuam, habitualmente não podem riscar com a profundidade suficiente para destruírem as assinaturas impressas de muitos milénios. Mas se imaginássemos um homem de oitenta mil anos, então teríamos nele um carácter até absolutamente mutável: de modo que uma multidão de indivíduos diferentes se desenvolveria a partir dele. A brevidade da vida humana conduz a muitas afirmações erróneas acerca das características do homem.


Nietzsche

Equívoco do sonho

Nas eras de rude civilização primordial, o homem julgava travar conhecimento no sonho com um segundo mundo real; aí está a origem de toda a metafísica. Sem o sonho, não se teria encontrado motivo para uma separação do mundo. Também o fracionamento em alma e corpo está ligado à mais antiga interpretação do sonho, do mesmo modo a hipótese de uma aparência corpórea para a alma; por conseguinte, a proveniência de toda a crença nos espíritos e, provavelmente, também da crença nos deuses. "O morto continua a viver, pois aparece aos vivos no sonho": assim se concluía noutros tempos, através de muitos milénios.

Nietzsche

terça-feira, 12 de abril de 2011

Cidadania



 A vida como cidadão

   O cidadão vive dentro de 4 paredes, rodeadas por outras 4 paredes. Assim estará disposta qualquer Casa num ambiente citadino: rodeada pelas paredes das outras casas, como que sendo Ela uma pessoa, dentro da sua própria casa. Tais casas estarão sempre fechadas, pois ao abrir uma janela, o cidadão verá apenas outro interior: a casa da sua casa, ou seja, o seu próprio ambiente, em que qualquer céu, não tendo pois um horizonte, nunca será mais que um tecto, povoado por moscas com penas. E que cidadão devidamente preocupado não verá afinal as aves como sendo moscas? - as moscas do seu quarto. As suas janelas nunca poderão estar abertas. Elas abrem-se para si mesmas, abrem-se para dentro-de-si e nunca para aquilo que está lá fora; e isto de uma forma tão evidente, que a paisagem que se vê das janelas de uma casa da cidade é composta por janelas de casas.
   Qualquer transeunte apresentar-se-á ao cidadão como alguém inalcançável, por isso ele leva consigo um mini computador-portátil de bolso, com a sua lista de contactos de pessoas alcançáveis, ou antes, as pessoas que existem no seu mundo, na sua rede pessoal. Todas essas pessoas, inexistentes no campo sensorial do cidadão, constituirão o motivo da sua escolha, e o caminho a seguir. O seu motivo nunca será a sua ocupação presente, e tal ocupação resumir-se-á a um andar ligeiro, rumando em direcção ao motivo distante.

   O cidadão está distante daquilo que lhe é presente.
  
O cidadão não cria o seu próprio ambiente, ele desenvolve um ambiente que já foi criado pelos cidadãos que lhe precederam, regindo-se assim pelos valores inerentes ao conceito de cidadania, aos valores portanto, daqueles que já são cidadãos. A cidadania é uma aura do passado que persiste no hoje. É um carimbo que dita o rumo do hoje e que lhe dá um sentido. Mas o hoje alguma vez existiu antes? Então a cidadania traz ao hoje aquilo que não pertence ao hoje. Que deus é esse afinal, que estampa um carimbo no hoje? Que deus é esse que se impõe aos cidadãos? E não revela isto a contradição que existe em todos os que se declaram ateus?

   A cidadania é uma maneira de sermos aquilo que não-somos. É um valor que concede ao homem as características de um animal de estimação. E por muito terreno que tenha, por muita ferocidade que tenha, qual é o cão doméstico que não vive numa “gaiola” a depender do(s) seu(s) deus/deuses?

André Rúben
12/04/2011